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Adil Samara, um capítulo à parte na reumatologia

Por : Estefanía Fajardo
Periodista científica de Global Rheumatology by PANLAR.



22 Março, 2022

https://doi.org/10.46856/grp.25.ept112

"Pensava em dedicar-se à anestesiologia até que um dia conheceu o professor Israel Bonomo, que lhe contou sobre a recente descoberta da cortisona. Daí em diante sua vida esteve ligada ao tratamento das enfermidades reumáticas. "

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Estefanía Fajardo

Uma troca de correspondências, vídeo chamadas e mensagens via Whatsapp. Tudo através da tecnologia que tanto nos aproximou durante esta pandemia por covid-19 e permitiu que, apesar da distância, existisse uma comunicação para conhecer melhor o Dr. Adil Samara. 

“Graduei-me em 1959 na antiga Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil (hoje, Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro), fundada em 1808, a segunda mais antiga do país - 10 dias depois da de Salvador - Bahia”, diz e complementa, “portanto, já faz 63 anos”. Samara nasceu em Araçatuba, estado de São Paulo, Brasil, em 7 de outubro de 1935. 

Em seu relato, Samara conta que, naquele momento, muito poucos se interessaram em reumatologia, em razão de que era “uma especialidade muito desprestigiada que só contava com o uso de analgésicos e antiinflamatórios”.

Também havia o  ouro coloidal - denominado fármaco base - introduzido na reumatologia por Jacques Forestier em 1929 em um Congresso Mundial de Reumatologia, em Budapeste. “Ele mesmo não estava convencido da eficácia deste fármaco quando seu pai Henry Forestier o animou a seguir usando, que pela primeira vez via certa melhora no tratamento da poliartrite crônica progressiva, nome francês”, rememora Samara. 

Ambos eram médicos assistentes num famoso balneário termal no sul da França, Aix Le Bains. “O professor Forestier, a convite nosso, esteve no Brasil em 1972 para um curso de radiologia vertebral e nos disse que a idéia de usar sais de ouro na Artrite Reumatoide se devia precisamente a sua efetividade observada na tuberculose em meados do século XVIII”, conta ele. 

“Fui encaminhado para a Gastroenterologia do Hospital Escola São Francisco de Assis sob a direção do professor José Paula Lopes Pontes. Havia dois pacientes internados no Pavilhão 10 com Artrite Reumatóide, e os que passavam não faziam nada", continua em seu relato. E depois conta como, certa manhã, assistiu a uma aula do professor Israel Bonomo sobre cortisona e derivados sequenciais até a dexametasona. “Então, pedi a ele que viesse comigo para ver os dois pacientes. Já era quase 1 da tarde e nessa visita ele saiu às 5 da tarde.”

Bonomo acabara de chegar da Cornell University, nos Estados Unidos, considerada uma das oito melhores universidades do mundo, onde trabalhou por dois anos a serviço do professor Freiberg, que introduziu o ouro coloidal no Ocidente.

“Ao final da discussão desses dois casos, ele me perguntou se eu gostaria de fazer reumatologia, ao que respondi que sim. Na manhã seguinte fui chamado pelo professor Pontes em seu consultório, e lá ele me perguntou a mesma coisa, se eu queria fazer Reumatologia, e respondendo que sim, ele me designou para ir ao ambulatório de doenças reumáticas duas manhãs por semana. Foi o início de uma vida que dura até hoje”, conta precisamente em suas palavras.

O começo não foi fácil, ele confessa, “porque, depois do estágio com o professor Bonomo, me mudei para Campinas, onde minha família morava e era mais fácil pagar o custo de vida. Embora eu tenha visitado médicos falando sobre meus objetivos e esperando que me prestigiassem, eles ainda encaminhavam pacientes com queixas reumáticas para cardiologistas, por lesão mitral residual na febre reumática, para clínicos gerais, para pediatras, para uso profilático de penicilina também neste doença, traumatologistas, então para a agora conhecida osteoartrite, fisiatras, fisioterapeutas e até psiquiatras".

Depois de um bom tempo assim, continua em seu relato, “um colega meu, oftalmologista, me levou ao Instituto Penido Burnier (Hospital de Oftalmologia com mais de dois milhões de pacientes cadastrados desde sua fundação no início deste século) e me apresentou a todos dizendo que eu iria fazer uma especialidade nova e instigante, a reumatologia”.

Neste Instituto havia também um médico e patologista muito temido pelos colegas, tal era a sua competência clínica. “Fui lá pedir a esse colega falecido para ver um caso daquela super clínica, doente que apresentava uma incisão na região plantar junto ao hálux e uma contra-abertura também na região plantar junto ao 5º dedo. Por fim, surpreendentemente, esfregou a ferida da sola do pé, aplicando a pomada Minâncora.”

Ele diz que não precisou fazer "o menor esforço" para suspeitar de uma crise de gota. “Acredite, caí na simpatia do gênio campineiro que me ligava todos os dias para comentar algum caso de dor e sinais inflamatórios”, lembra, com graça.

“A gota era uma doença muito rara entre nós, pois, em 1940, foi publicado um artigo sobre um único caso sob o título: - A gota não é um problema brasileiro. Então ficamos 20 anos sem falar da doença, que só mudou quando o Dr. Bonomo, em um levantamento de todo o país, coletou 1.800 casos publicados nos anais do Congresso Médico Italiano Minerva de 1960”, conta Samara.

 

FOCO

Neste ponto, há um espaço em seu texto. Dividimos as histórias, que não são poucas, como ele confessa. Ele tem muito a contar e já o fez em algumas ocasiões, mas sempre vem à mente algo novo, algo que mudou e algo que permanecerá.

“Histórias não faltam para alguém como eu, que há seis décadas é professor de uma das mais importantes universidades do Brasil, de doutorado a professor titular e emérito, e que tem como crédito ser autor e coautor em Reumatologia. Atrevo-me a listar com medo de que a arrogância ultrapasse o que ainda tenho de modéstia que me esforço por ter”, diz, acrescentando que tem mais de 600 artigos publicados e 2.200 documentos catalogados em sua história.

Em artigo publicado pela Academia Brasileira de Reumatologia, ele diz que “o mais emocionante ainda é curar, mesmo que raramente; melhorar sempre que possível e confortar sempre” (1)

Mas aqui entra em um ponto importante, em que ele não conta mais do que o necessário porque, como diz, procura continuar mantendo a modéstia e estando longe da arrogância.

“A descoberta do pulso de cortisona ocorreu acidentalmente em meu Serviço em 1970 por um de meus residentes com uma dose ainda maior do que a utilizada por Morton Scheinberg e Cathcart  publicada no The Lancet em 1976 (2)”. No nosso caso - continua com a história - a paciente era uma menina do Instituto Bairral de Itapira, em coma, que posteriormente foi confirmado como tendo Lúpus. 

Adil Samara y Hilton Seda, 1970.
Professor Adil Samara e Hilton Seda, PANLAR Punta del Este (Uruguai) 1970.// Créditos: Associação Uruguaia de Reumatologia.

“A peridural contínua com corticosteroides foi outra grande contribuição nas metástases espinhais como alívio da dor até o momento fatal. Além disso, a dosagem de cálcio no líquido sinovial antes e após a adição de um solvente, citrato de sódio, medindo a diferença entre os dois, tem valor preditivo estatisticamente mais consistente do que a microscopia de luz polarizada compensada, que depende do operador. Eu não vendo o cristal, ninguém pode ficar sem cristal, principalmente porque ele se dissolve em 96 horas após a coleta."

Ele tem um livro chamado "Muitas vidas, uma só memória". É autobiográfico e foi lançado em 2016 e nele conta a história de um filho de imigrantes libaneses, bem como a saga de sua família. Samara conta suas aventuras juvenis. A escolha da medicina, a vida acadêmica no Rio de Janeiro e o desejo de se tornar reumatologista o levam a descobrir a história de alguns dos mais importantes reumatologistas brasileiros. (3)

 

PANLAR NA SUA VIDA

Directivos panlar
Diretores do PANLAR 1986 - 1990, da esquerda para a direita: Drs. Duncan A. Gordon, Presidente Eleito; Geraldo Gomes de Freitas, Secretário Geral; Adil M. Samara, presidente, e Hugo E. Jasin, tesoureiro. // Créditos: Referência 4

Samara foi presidente da PANLAR (1986-1990); secretário geral e vice-presidente da lLAR, (1986-1990); presidente da Academia Brasileira de Reumatologia (2002-2004), além de ser presidente da conferência “Medalha de Ouro-Prêmio Joseph Bunin”, concedida pelo professor Morris Ziff no ACR, em 1982. (1)

Na história do PANLAR, Samara tem uma seção especial. Assim se refletiu no livro histórico quando se refere ao fato de que, em 1990, pouco antes do término de seu mandato, o Dr. Samara soube escutar os sinais de mudança que se anunciavam na PANLAR.

Talvez estivesse pensando na sede regional que ajudou a fundar no Brasil quando disse diante da Assembleia da entidade que era preciso enfrentar um novo desafio. Diante de centenas de reumatologistas, Samara subiu ao pódio: "Para que no futuro - disse com voz lenta - as discussões desta Liga sejam mais inclusivas, permita-me sugerir às gerações futuras a possibilidade de criar duas ligas, uma no Norte e outro no Sul do continente, ou, se preferir, um composto por países latinos e outro por anglo-saxões. Estou propondo uma divisão regional baseada na geografia e na língua que nos abriga, e não um intercâmbio cultural. Em outras palavras, parece-me muito mais fácil e viável administrar duas ligas no grande continente em que residimos” (4).

Essas reflexões contribuíram para a posterior reorganização do PANLAR com a criação das quatro regiões geográficas em que a Liga está atualmente dividida.

As memórias do PANLAR são as melhores possíveis, diz ele, “principalmente no que diz respeito à saudade de quem partiu e deixou excelentes contribuições para que as novas gerações continuem estudando, transmitindo suas descobertas e educando outras”. Além disso, em 2008 recebeu a distinção "PANLAR Master of Rheumatology", que é concedida a membros cuja contribuição científica e/ou trabalho acadêmico reconhecido tenha contribuído significativamente para o desenvolvimento da reumatologia em seu país.

Acrescenta que o progresso não tem fim, “sobretudo no nosso caso, pela extraordinária complexidade das nossas doenças, mesmo face aos avanços mais recentes”.

E encerra sua história com esta mensagem aos "queridos e incomparáveis ​​leitores":

“Minha alma está lá, o infundíbulo da artéria pulmonar como os antigos acreditavam que existia. Onde quer que eu fosse, levava o nome do meu país, desempenhando as funções mais importantes na Sociedade Brasileira de Reumatologia. no PANLAR, ILAR, etc”, conclui.

  

REFERENCIAS 
 

  1. Adil Muhib Samara  https://reumatobr.com.br/team/adil-muhib-samara/
  2. Cathcart E, Scheinberg M, Idelson B, Couser W. Beneficial effects of methylprednisolone "pulse" therapy in diffuse proliferative lupus nephritis, The Lancet,  [Internet]. 1976;307(7952):163–6. Disponible en: http://dx.doi.org/10.1016/s0140-6736(76)91272-1 
  3. Professor Samara . “Muitas Vidas uma  sò memòria” https://hc.unicamp.br/professor-samara-lanca-livro-muitas-vidas-uma-so-memoria/ 
  4. PANLAR a través de su historia . Caballero CV (Editor )  - pag 88  http://www.panlar.org/sites/default/files/historia_de_panlar_75_anos_digital.pdf

 

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